Guitinho da Xambá se encanta, mas deixa legado ancestral para Pernambuco

Guitinho da Xambá se encanta, mas deixa legado ancestral para Pernambuco

Pelo som do Grupo Bongar ou no terreiro da Nação Xambá, ele foi um dos principais porta-vozes da cultura afro-brasileira. O portal Cultura.PE presta uma homenagem a uma das principais lideranças negras do Estado

“Nosso querido Guitinho da Xambá se encantou. Guitinho eternamente!”. Com essas palavras, o Grupo Bongar, com 20 anos de trajetória, se despediu nas redes sociais do seu vocalista, vítima de problemas decorrentes de um AVC, aos 38 anos de idade. Com o Bongar, Guitinho foi um dos principais porta-vozes da cultura afro-brasileira e da Nação Xambá, Patrimônio Vivo de Pernambuco, para a valorização e afirmação da nossa ancestralidade negra. Foi também um dos responsáveis pela criação do Centro Cultural Grupo Bongar, espaço que oferece no Terreiro do Portão do Gelo – quilombo urbano reconhecido pela Fundação Palmares em 2006 – aulas gratuitas de arte e empreendedorismo para os jovens da região e produziu diversos projetos culturais, alguns deles com incentivo do Funcultura. Por essas e outras razões, a morte precoce do músico, nesta quarta-feira (17), gerou uma forte comoção em toda a cena cultural do Estado, que reconhecia no artista uma liderança na defesa da cultura popular e na luta por políticas públicas voltadas para as religiões de matriz africana.

Com dois discos lançados, o Samba de Gira (2016) e Chão Batido Coco Pisado (2010), disponíveis nas principais plataformas de streaming, além de dezenas de parcerias com outros artistas, o grupo Bongar é um dos principais representantes da música contemporânea afro-brasileira, tendo levado o nome de Pernambuco e do País em diversos festivais internacionais, como o Womex, realizado em Budapeste, na Hungria, em 2013; e o Festival Dele Caribe – Fiesta Del Fuego, em Santiago de Cuba, em 2010. Neste último caso, Pernambuco era um dos homenageados daquela edição do festival, e a Fundação do Patrimônio Histórico de Pernambuco (Fundarpe) levou o Bongar, junto a uma delegação com uma centena de artistas, para representar o Estado.

Ao longo da carreira artística, Guitinho e o Bongar estiveram presentes em várias edições de atividades e festivais promovidos pela Secretaria Estadual de Cultura (Secult-PE) e Fundarpe, como o Festival Pernambuco Nação Cultural e o Observa e Toca – projeto que agregava um conjunto de ações para o desenvolvimento da música em Pernambuco, dentre elas a realização de shows e documentários sobre artistas do estado. Gravado em 2012, no Studio Casona, o show do Grupo Bongar está disponível na íntegra no Youtube, no endereço https://youtu.be/W8ThpRHsuTI.

Uma das últimas apresentações do Bongar promovidas pela Secult-PE e Fundarpe foi durante a programação do Bora Pernambucar, em fevereiro do ano passado, no Cais do Sertão, enchendo a plateia com fãs e admiradores. Outra memorável apresentação do Bongar foi no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), em 2016. Diante de um Palco Pop lotado, e ao lado do cantor e compositor Juliano Holanda – que, assim como centenas de fazedores de cultura amigos do artista, prestou homenagens a Guitinho nas redes sociais – eles transformaram o Parque Euclides Dourado num templo para celebrar a força encantada dos orixás.

Defensor do registro histórico dos povos tradicionais, Guitinho esteve, por exemplo, em 2016, na Semana do Patrimônio Cultural de Pernambuco, durante um encontro sobre educação patrimonial e museus comunitários, para falar do trabalho desenvolvido na Nação Xambá. Em 2012, integrou a programação do Seminário de Cultura Popular, promovido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Iphan-PE) em parceria com a Secult-PE e Fundarpe.

Ao lado do Bongar, o artista também participou de vários projetos incentivados pelo Funcultura, como o lançamento da revista Outros Críticos e uma turnê com o Som Na Rural, entre outros. Produziu também a gravação do DVD Festa de Terreiro (2015), do disco Samba de Gira (2016), a realização do projeto Tem Preto na Tela (2015) e uma oficina sobre patrimônio cultural, estes últimos promovidos pelo próprio Centro Cultural Grupo Bongar.

Sobre o DVD Festa de Terreiro (gravado no Nascedouro de Peixinhos), em entrevista ao Portal Cultura.PE em 2015, o artista Jr. Black, um dos amigos que prestou homenagens ao cantor nas suas redes sociais, resume bem o significado da potência da obra artísticas produzida por Guitinho e seus primos do Bongar:

“É peça obrigatória em qualquer estante ou rack de quem aprecia a música brasileira e pernambucana em sua mais pura essência, carregada de ancestralidade, envolta no mosaico da religiosidade e do profano, como bem é este coco feito por pessoas amigas, apaixonadas, devotadas e ligadas uterinamente à Nação Xambá, um centro de resistência, fé e cultura ancestral, com uma linda história de mais de 80 anos”.

Em nota, a Secretaria Estadual de Cultura e a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco lamentaram profundamente a morte de Guitinho de Xambá.

Segundo o presidente da Fundarpe, Marcelo Canuto, essa é uma perda muito sentida para o Estado. “Apesar da pouca idade, Guitinho sempre foi uma referência na cultura popular pernambucana e na defesa e no registro de nossa ancestralidade africana. Destaco não apenas seu trabalho no Grupo Bongar, mas também sua participação atuante na luta por uma política pública de cultura para o setor. Deixo minhas condolências aos familiares e a todos que fazem a Nação Xambá”, declarou Canuto.

Para o secretário de Cultura, Gilberto Freyre Neto, ficará sempre na memória o talento e a energia que emanavam de Guitinho. “Será sempre lembrado pela grande contribuição que deu na retomada do Terreiro de Xambá. Foi uma liderança jovem, com um talento incrível para a música. Está marcado para sempre na cultura de Pernambuco. Desejo muita força à família e aos que integram o Grupo Bongar e a Nação Xambá nesse momento de dor. Que ele siga seu caminho de luz”, disse o gestor.

O Conselho Estadual de Política Cultural, por meio do seu presidente Jocimar Gonçalves, também publicou nota lamentando a passagem do artista. “Admirado por sua trajetória, Guitinho representou com muito respeito e maestria, a força e os ensinamentos de seus ancestrais, seja no terreiro, nas ruas e nos palcos! Guitinho da Xambá desencantou, mas nunca deixará de ser guerreiro de nosso povo”, escreveu ele.

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