Três amores ou desejos de Henrique Fontes

Três amores ou desejos de Henrique Fontes

ATOR, DIRETOR E DRAMATURGO DO GRUPO CARMIN, HENRIQUE FONTES LANÇA LIVRO DE DRAMATURGIAS COM FOCO NAS POSSIBILIDADES E IMPOSSIBILIDADES DO AMOR HOMOSSEXUAL
POR MAGELA LIMA

José Hermílio e Júlio de Joana, Georges e Henfil, e Humberto e Andy (ou André) se amam. Talvez, o mais apropriado seja dizer que todos eles tenham tentado se amar. Nem sempre o amor é possível. Muitas vezes, o que fica é desejo, apenas.

É disso que fala o ator, diretor e dramaturgo Henrique Fontes, do Grupo Carmin, de Natal, em seu mais novo livro. “Dramaturgia do Desejo: 3 Peças de Amar” é um recorte sensível sobre diferentes tempos e diferentes lugares que tentam abraçar uma mesma ação, um amor tantas vezes proibido, censurado, condenado.

Muito elogiado pela escrita de peças de grande projeção no panorama recente do teatro brasileiro, a exemplo de “Jacy” (2013), em colaboração com Iracema Macedo e Pablo Capistrano, e “A invenção do Nordeste” (2017), em nova parceria com Capistrano, Henrique Fontes apresenta agora textos atuais, ainda inéditos, enquanto resgata uma dramaturgia de 2008.

“A Mar Aberto” foi encenada com direção do próprio autor pelo coletivo Atores à deriva; “Eu e VC” e “The Andy”, por enquanto, ainda estão presas ao papel. Por enquanto. O conjunto, embora tematize um mesmo horizonte, é absolutamente diverso.

“Dramaturgia do Desejo: 3 Peças de Amar” é introduzido por “A Mar Aberto”. No texto, composto por 13 movimentos e um emaranhado de cenas, Henrique Fontes apresenta a descoberta do amor de José Hermílio, pescador já mais velho, saído de dois casamentos, e Júlio de Joana, garoto de 19 anos, um estudante de medicina seduzido pelo mar, como uma tormenta absolutamente violenta.

Ancorado na voz e nas memórias turvas de José Hermílio, a peça flagra esse encontro e esse amor inusitado como algo maldito, condenável, impossível. Em “A Mar Aberto”, tudo parece fantasia a ponto de o próprio texto questionar a possibilidade de a gente viver o que nunca existiu.

Em “Eu e VC”, ao contrário, Georges e Henfil, ao fim, parecem concretizar o amor e o desejo que a vida e seus desencontros insistiram em retardar. Nessa segunda dramaturgia do livro, Henrique Fontes contextualiza a relação dos personagens centrais num tempo mais contemporâneo, muito embora faça questão de revelar os passados que insistem em ameaçar o presente.

A peça tem um movimento de cena muito interessante, um fluxo de tempos muito rico, e uma escrita bastante inteligente, além de pontuar dramas associados ao universo homossexual, como o medo da AIDS e o dilema da adoção de crianças, de forma sensível. É, de longe, o melhor dos três textos da publicação.

“The Andy”, também numa pegada mais contemporânea, vai apresentar Humberto, um homem de 50 anos que decide acabar com a própria vida num quarto de hotel. Antes grava um vídeo, que não é bem um testamento, mas um acerto de contas com o passado.

Nesse tempo outro, Humberto tem um amor não vivido com André, seu Andy ou end, para fazer jus ao trocadilho do título. O texto tem uma fluidez e uma eloquência muito particulares, como se fosse uma alucinação, mas volta a posicionar o amor homossexual nesse lugar da impossibilidade, aquilo que poderia ter sido, mas não foi.

“Dramaturgia do Desejo: 3 Peças de Amar” é singular e plural a um só tempo. Autor de 17 peças teatrais, Henrique Fontes, vencedor da edição de 2019 do Prêmio Shell pelo texto de “A invenção do Nordeste”, não é um autor que se guie por modelos. Isso fica mais evidente ainda num volume em que ele reúne peças aproximadas por uma temática comum. “A Mar Aberto”, “Eu e VC” e “The Andy” são distintas desde o vocabulário até a orientação de cena que sugerem. Henrique Fontes é, de fato, um autor de teatros.

Realizado com recursos da Lei Aldir Blanc e publicado pela Editora Mariana Hardi, de Natal, “Dramaturgia do Desejo: 3 Peças de Amar” enfrenta, com muita coragem e uma fundamental dose de diversidade, aspectos da representação e da representatividade dos relacionamentos e dos amores homossexuais. Evidentemente, o livro não esgota todas as questões, mas descortina personagens e sentimentos, o que é sempre muito bem-vindo. Como literatura dramática, o título, que conta com prefácio do pesquisador e diretor Francis Wilker, ocupa um espaço ainda muito desafiador e torna possível que vozes por tanto e tantos silenciadas possam se fazer ouvir. Que não tarde, pois, a ganhar encenações!

O livro pode ser adquirido diretamente com o autor, através do e-mail dramatugobrasileiro@gmail.com. O valor é R$ 35, já com o frete incluso.

MAGELA LIMA

Crítico e pesquisador de teatro, tem mestrado e doutorado em Artes Cênicas.

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