Reféns da seca X

Reféns da seca X

Da série do Blog de Magno Martins

O flagrante da família inteira sentada de mau jeito, com faca na mão, correndo risco de cortar um dedo pela rapidez na descasca, nos remete também à escravidão da senzala gilbertiana. Cada um da família tem que alcançar a meta de entregar ao patrão 10 quilos de mandioca raspada por dia, para tirar no final de semana R$ 30.

“Eu não sei o que é pior: cortar cana ou mandioca”, diz João, reclamando das dores nas mãos. “De noite, quando chego em casa minhas mãos parecem adormecidas. Reclama eu, minha mulher e os filhos, mas se a gente não se submeter a isso terá que voltar para o canavial, que é pior por causa do sol”, diz.

Os personagens de Morte e vida Severina também aparecem estampados no solo de uma região que num passado distante já projetou Pernambuco como um dos maiores produtores de açúcar do País. Açúcar que adoçou a vida de tantos brasileiros do sul-maravilha e até de gente em outros continentes.

“Aqui, a cana não presta mais nem pra gente chupar e enganar a barriga”, reclama Severino José da Costa, 68 anos. Natural de Vicência, município próximo a Ferreiros, onde vive na mesma invasão de Maria de Lourdes, ele conta que está desempregado há mais de 10 anos. “Estou velho para cortar cana”, admite.

Sem resistências para o trabalho braçal, “seu” Severino diz que vive, hoje, de catar lixo. Sozinho na vida – “a mulher me largou” – bate no peito e diz que tem um coração grande. “Nunca fiz um filho, mas tenho 30 filhos”, dispara, numa alusão aos companheiros de invasão, que, segundo ele, sofrem da mesma dor, como filhos da mesma dor.

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